Aeroporto de Faro sem taxas. Porque não?


O Governo prepara-se, assim o aponta a imprensa generalista, para apresentar a breve trecho um pacote de medidas "de urgência" para a região do Algarve, destinado a lidar com a crise, a contração económica e, sobretudo, com o desemprego regional, tido como o mais alto do país e para o qual já nem os empregos sazonais de Verão parecem contribuir para atenuar.

Os dados em causa são claros e francamente negros: às limitações financeiras da República soma-se o colapso generalizado da estrutura produtiva regional, com a falência quase total da indústria de construção e obras públicas e, ainda, a estagnação do mercado turístico não obstante as tímidas taxas de crescimento que, na margem, se têm feito sentir nos últimos meses no número de passageiros do Aeroporto e Faro.

A tendência é, acima de tudo, uma consequência da recessão instalada na generalidade dos mercados europeus e, mesmo naqueles onde tal ainda não se verifique, o atual ambiente de instabilidade volatilidade dos mercados de capitais.

Na região algarvia, em particular, o enfraquecimento da banca internacional e nacional levou à completa destruição do setor imobiliário, responsável direto pela geração de uma economia local de milhões, agora desaparecida. Ao desemprego daí resultante, soma-se a perceção generalizada na região que, com efeito, as estruturas hoteleiras, em face da instabilidade sentida, procuraram, pela primeira vez em dezenas de anos, não contratar os costumeiros acréscimos sazonais de trabalhadores não obstante estar a verificar-se um relativo aumento de passageiros no aeroporto de Faro nestes meses de Verão por comparação a período homólogo do ano passado.

O aeroporto de Faro tem, aliás e depois dos crescimentos fenomenais da segunda metade dos anos 90 e início da primeira década dos 2000, sentido uma tendencial estagnação do seu crescimento tendo-se agudizado, ao contrário do desejado, a sazonalidade do seu tráfego, sendo que as operações vêm batendo sucessivamente recordes positivos de Verão e mínimos de operações já há muito não vistos durante o Inverno. Ora, tal facto mais ainda potenciado pela elasticidade das transportadoras de baixo custo no que toca à sua capacidade de corte de operações no Inverno, levou a que, pela primeira vez, as mais relevantes cadeias hoteleiras da região algarvia que, normalmente, operavam ao ano inteiro fossem forçadas a, no Inverno passado, encerrar de Novembro a Março, criando ainda mais desemprego.

Frise-se, no entanto, que, não obstante associado a algumas questões locais no que toca à síntese de prioridades e direção de investimento, o que se vem passando no Aeroporto encontra paralelo em grande parte dos aeroportos europeus, sobretudo nos que mais diretamente apresentam mercados semelhantes ao farense como Málaga, Alicante ou Heraklion.

O estudo sobre tendências de tráfego dos aeroportos europeus no ano de 2012 realizado pela reputada consultora anna.aero, é exemplificativo desta tendência.


Dos dados aqui constantes facilmente se depreenderá que, na generalidade dos aeroportos do países da orla mediterrânica, a crise tem sido devastadora também no que toca ao movimento de passageiros, sendo que a Grécia e Espanha atingem mesmo patamares há muito não vistos de contração do tráfego de passageiros. No caso do vizinho ibérico, os aeroportos de Málaga e Alicante, com composição de tráfego muito semelhante ao aeroporto de Faro, chegam a quedas na casa dos 14% e o Aeroporto de Sevilha, com um catchment geográfico relativamente próximo ao da capital algarvia enfrenta quedas que, por exemplo em Março, foram superiores a 15%. Tudo isto a ser, note-se, ainda mais potenciado pelas recentes subidas de taxas nos aeroportos espanhóis, consideradas desastrosas por grande parte das companhias aéreas (a Ryanair, por exemplo, prepara-se para cortar 36 rotas espanholas e reduzir a frequência de 78 mais).

A verdade é que, com efeito, os aeroportos portugueses têm conseguido resistir mais ou menos a esta tendência sendo, notoriamente e de entre todos os países mais atingidos pela crise europeia, aqueles que menos efeitos tem sentido no seu tráfego (Lisboa cresce moderadamente arrastada pela TAP e o Brasil e novos "players" como a Emirates, o Porto tende a estagnar e Faro tem decréscimo sobretudo nos meses de Inverno não suficientemente relevante para contrabalançar o todo relativamente positivo da globalidade das operações portuguesas.

Contudo, e na verdade, a situação tende a piorar. Sobretudo, e de forma imediata, em Faro daqui resultando a maior urgência desta questão. As principais companhias aéreas preparam-se para, novamente, cortar nas suas operações de Inverno em toda a Europa com a Ryanair e a easyJet a anteciparem já cortes e parqueamento de aeronaves durante a época baixa seguidos, pela primeira vez, por companhias como a British Airways, a Air Berlin ou a Air France.

O Aeroporto de Faro será pesadamente atingido: por exemplo, e como anunciado para o Porto, a Brussels Airlines, anteriormente uma transportadora de todo o ano, vai suprimir a sua ligação a Bruxelas durante o Inverno e a British Airways, tudo indica, deverá suprimir os voos de Faro para Londres City durante a época baixa agudizando a sazonalidade da região. Nos últimos anos, Faro viu desaparecer operações de Inverno de importantes companhias como a Lufthansa, a TUIFly, a Norwegian ou a Thomson e ainda reduzir as de importantes operadores invernais como a TAP ou a Air Berlin. E, pior, tem perdido mercados outrora fieis ao Inverno algarvio, como o alemão e o escandinavo sendo que o decréscimo só não é maior por influência da fidelidade do mercado britânico.

Ora, numa altura em que tanto se fala de necessidade de aumento das exportações portuguesas, é bom lembrar que o Turismo é o maior setor exportador do país devendo receber a maior das atenções por parte do Governo. E só com uma intervenção rápida se poderá potenciar a criação imediata de postos de trabalho ou, no pior e pelo menos,  assegurar a manutenção dos que ainda existem.

É importante notar também que, na prática e no atual estádio de desenvolvimento regional algarvio, não é a oferta hoteleira que atrai as companhias aéreas mas sim, e ao invés, toda uma região que apenas trabalha e se mantém aberta se existirem ligações aéreas nos meses de época baixa, como mostram declarações dos mais importantes hoteleiros nacionais. È pois de suprema importância criar condições de atração para as companhias áereas, independentemente da rota ou mercado em que operem, de modo a, pelo menos, potenciar as operações de voo durante o Inverno.

Daí que pensamos ser defensável que as autoridades portuguesas estudem e, acima de tudo, decidam aplicar a redução, senão mesmo a isenção total de taxas, no Aeroporto de Faro durante, pelo menos,  o Inverno IATA.

Tal atitude, em contracorrente com o que os nossos maiores competidores estão a fazer no que toca à indústria turística e da aviação (por exemplo, Espanha e a subidas taxas que motiva atualmente a drástica perda de ligações) seria um importante sinal dado aos mercados e, se aplicada horizontalmente a todos os operadores low cost e tradicionais, seria conforme aos ditames do Direito Comunitário no que toca às questões de subvenções e discriminação positiva em mercados concorrenciais.

Tal solução foi, por exemplo, recentemente aplicada pelo Aeroporto de Malta quando as autoridades daquele pequeno estado insular se depararam com uma acentuada crise no Turismo, principal atividade comercial do país, tendo tido excelentes resultados operacionais: a Emirates aumentou os voos para a ilha, introduzindo maiores aviões, a ryanair criou uma base e a easyjet disparou: de Janeiro a Abril de 2011, o tráfego aumentou entre 15 (janeiro) e 25% (abril). No período de outubro a dezembro o crescimento rondou uns ainda assim positivos 3%.

O mais recente contributo para esta estratégia vem do aeroporto de Cambridge que, neste Inverno, baixará em média 70% as suas taxas, podendo tal redução atingir os 87% no caso dos aviões tipo Boeing B737.

Mais ainda, este pode ser o momento chave para se tomar tal atitude.

Por um lado porque, tudo indica, a ANA Aeroportos será brevemente privatizada escapando, então, ao controlo das autoridades essa capacidade de investimento que representa a baixa das taxas e que tanta influência pode ter no tecido produtivo e empresarial português. Mas também porque, por outro lado, as congéneres da ANA nos mercados concorrenciais encontram-se descapitalizadas e sem capacidade de baixar taxas. O caso paradigmático espanhol, onde a AENA Aeropuertos tem um prejuízo anual de mais de 200 Milhões de Euros e uma incrível dívida acumulada de mais de 12300 Milhões de Euros (equivalente a 1/5 do resgate português pedido à troika) é disso um excelente exemplo. A portuguesa ANA Aeroportso encontra-se em terreno positivo, dando lucro...

Porque não, então, baixar as taxas em Faro?



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